A noite do mundo na banheira

Sentado no balcão da casa de banhos, sinto a cidade inteira ficar com cheiro de água quente. Amaciante de toalhas, cabelo úmido de velhos, sebo de jovens exaustos. No meio da metrópole, só aqui preço e classe se dissolvem, borrados na água de quarenta e dois graus. Talvez a banheira seja o resquício de uma sociedade igualitária que alguém sonhou um dia. Nuos, lado a lado, o gerente e o entregador têm exatamente o mesmo número de rugas.
Este balneário está de pé desde o tempo do meu avô. Sessenta anos de portas abertas, uma única reforma. Só a televisãozinha pendurada acima do vestiário foi trocada por uma de tela plana, há três anos. Foi a pedido dos clientes. Pelo visto, querem ver os programas de economia.
Abaixo da tela, números vermelhos e brancos correm sem parar. S&P 500. Sem que ninguém percebesse, os clientes nus da casa de banhos passaram a trazer os índices do mundo até dentro da água. Para mim, do balcão, esses números parecem a tremulação da superfície. Bolhas que sobem, estouram e desaparecem.
Uma noite, um velho que se diz analista de valores e cliente assíduo apoiou o cotovelo na borda da banheira e disse: — O mundo inteiro está mergulhado na mesma banheira. A água quente é despejada sem parar. Mas, na prática, ninguém tapou o ralo. Em breve a água vai turvar, pesar e transbordar de uma vez. Fiquei em silêncio e conferi a temperatura. Quarenta e dois graus. Como sempre.
Também vem um homem de rosto conhecido. Ator coadjuvante de profissão: cem pessoas reconhecem a cara, mas nenhuma sabe dizer o nome. Ele conta as moedas com cuidado e as deixa no balcão, e afunda sempre em silêncio na banheira mais afastada. Certa vez riu de si mesmo, dizendo que parecia uma piscina de coroa. O homem que não conseguiu ser protagonista juntou-se a um lugar sem protagonistas.
Numa tarde no fim das chuvas de verão, um sapinho flutuava na banheira rasa. Verde, com um ar terrivelmente acostumado, assistia à televisão por cima do ombro de um cliente imerso na água. Numa casa de banhos no coração da cidade, um sapo não deveria aparecer. Recolhi-o com as mãos e o soltei no beco pela porta dos fundos.
No dia seguinte, o sapo estava de volta. Dessa vez no fundo da banheira profunda, imóvel, só com os olhos para fora d’água. Nenhum cliente se surpreendeu. O ser humano exausto perde até a força de reconhecer o anormal como anormal.
Quando criança, eu lia um mangá sobre um sargento verde. Alienígenas tentavam invadir a Terra e sempre perdiam no último passo, para os doces. Hoje acho que aquilo era mentira. A invasão de verdade não é ocupação nem bombardeio. Deve ser justamente isso: ir se acostumando, uma banheira de cada vez, sob a forma de criaturinhas que não ficam no olho de ninguém. No dia do ultimato de rendição, os humanos já estarão todos imersos na água, sem nem perceber.
No início de agosto, o consumo da caldeira ficou estranho. O combustível diminuía, mas a água continuava quente. Desconfiei dos termômetros e troquei três; o resultado foi o mesmo. A água parecia jorrar das profundezas da terra. Meu avô dizia sempre: o caminho da água quente é mais antigo que o caminho dos rios.
O velho falou de novo: — O mercado é um jogo em que só se pensa em subir para a borda da banheira. Mas se alguma coisa começar a se mover no fundo da água, o que se faz? Não respondi. O trabalho de quem está no balcão é apenas continuar esquentando a água. Se chegar uma noite em que eu não consiga esquentá-la, me tornarei mero espectador.
Essa noite chegou. Numa madrugada de fim de outono, os números da televisão ficaram todos vermelhos ao mesmo tempo, e o fluxo parou. Não era apagão. Em algum lugar distante, um servidor simplesmente deixou de regurgitar. Do dia seguinte em diante, a clientela da casa de banhos aumentou. Jovens cujo aplicativo de entregas parou, velhos cujas transações sumiram, o ator sem trabalho. Todos mergulhavam em silêncio. Ninguém se revoltou. A água quente amortece até a raiva.
De madrugada, enquanto fazia os livros-caixa no balcão, vi uma luz no fundo da banheira profunda. Uma luz pálida, como de estrela. O sapo emergiu na superfície e coaxou. Coaxou. Como se sobrepondo ao coaxar, do lado de fora da janela as luzes da cidade se apagavam uma a uma, em ondas, do longe para o perto. Era como se alguém passasse borracha em um desenho cheio de erros, começando por cima.
Sem sair do balcão, encarei apenas a temperatura da água. Quarenta e dois graus. Por algum motivo, como sempre. Enquanto o sistema do mundo desmoronava, só a água estava certa. E dizem que até o morro dos fundos já começou a tremer.
A luz estrelada na superfície desenhava círculos lentos. Redemoinho ou despertar. Eu sou um homem sem ambição e sem talento, que apenas sabe continuar enchendo a banheira. Mesmo assim, se o mundo for renascer daqui, o primeiro a sentir o cheiro da água recém-aquecida serei eu.
O sapo coaxou de novo. A próxima luz a se apagar deve ser a desta cidade. O que você faria? Sairia da água e vestiria as roupas, ou ficaria a ver, como estou, o algo que nasce no fundo da banheira?