A Noite Amanhece sem Ser Acesa

A plataforma de lançamento tinha o número 214. Mas ali jaziam 215 fogos, alinhados com cuidado. Um era a mais, sem número de série. No papel de embrulho, um adesivo de estrelinha — um rosto que parecia sorrir, como se já o tivesse visto em algum lugar.
Eu era aprendiz do acendedor. Não tinha qualificação formal. Ainda assim, me contrataram. No contrato da noite havia uma única linha: “O contrato de trabalho termina ao término do lançamento.” Pela manhã, no rádio, o locutor anunciava, alegre, que as estatísticas de emprego haviam batido novo recorde. Ninguém me explicou como contavam, naquela soma, nomes como o meu — que duram uma noite só.
O local do lançamento era um terreno baldio chato, um pouco afastado do rio. Ao entardecer, as luzes provisórias se acendiam e o guindaste soltava um zumbido baixo. Num palco próximo, ensaiava uma idol. Não sei se era famosa. Das caixas de som saía a voz gravada; ela apenas movia os lábios. E já era suficiente. O público projetava nos lábios dela os próprios desejos.
O mestre acendedor confirmou os procedimentos com uma voz curta, como roída. Inspeção, fiação, pavio. Tudo em ordem. Exatamente o suficiente para 214. Quando perguntei sobre a peça extra, ele apenas franziu a testa.
“Sobe tudo o que chegou. É o que está no contrato.”
Contrato. Ele tinha cara de quem sabe o que essa palavra engole. Eu também sei. Este baldio é uma cidade que existe só esta noite; nós, seus habitantes de uma noite só. Ao amanhecer, equipamentos e pessoas desaparecem, e o lugar volta a ser apenas o cheiro da grama de antes.
O lançamento começou. O primeiro subiu com estrondo e se abriu no céu. A ovação da plateia atravessou o vale como vento. A sucessão de disparos continuou. A cada instante, o céu inteiro era reescrito. Entre um estouro e outro, olhei para o palco. A idol acenava, respondendo aos sinais da plateia. No pulso, uma pulseira fina e luminosa. Parecia mudar de cor conforme o número de aplausos. A ovação de todo aquele lugar se convertia num único valor numérico, acendendo sobre a pele dela.
Aquilo era parecido demais com o nosso lançamento desta noite. Nosso trabalho manual também está sendo somado, em algum lugar, numa única tabela. Quantos subiram, quantos se consumiram, quantos sobraram. Até que alguém se satisfaça.
Quando passamos de duzentos, o vento mudou. Sob comando, o lançamento foi suspenso por trinta minutos. A plateia murmurou, e a idol começou um bate-papo improvisado no palco. O tom de voz era perfeito. Perfeito a ponto de parecer que fosse se dissolver no céu do entardecer.
Ao lado do paiol, olhava para aquela peça extra. Aproximei o ouvido com cuidado, sem tirar o papel, e senti um tremor fraco. Não era o calor. Algo dentro pulsava em intervalos, como quem espera.
O tremor tinha ritmo. Desencontrava-se da música do palco e voltava a acompanhá-la. Parecia captar a pulsação da plateia, pensei. E no instante seguinte, um frio me correu pela espinha. Talvez algo — nada a ver com o sistema de ignição — estivesse movendo aquela peça.
Veio o sinal de retomada. Começou a última sequência. O céu ardeu. A cada explosão, fragmentos de luz se espalhavam por toda a visão e se apagavam. Acendi um após o outro, de mãos trêmulas. Olhando para cima, via o céu noturno virar uma folha em branco, ser preenchido, voltar a ser branco. Era lindo. Coisas lindas são, quase sempre, o resultado final do trabalho de alguém.
Quando disparei o último — o bis —, haviam se esgotado exatamente os 214 da plaqueta. Da plateia irrompeu uma salva de palmas ensurdecedora, e a idol ergueu as duas mãos em resposta. Seu adereço piscava em branco. Pelo visto, a cor do valor máximo.
Meu contrato deveria terminar ali. Mas ao lado do paiol, aquela peça ainda jazia. O tremor havia crescido. Por dentro do papel começava um som, como o de unhas se arranhando do avesso.
O mestre estava ocupado comandando a desmontagem, e ninguém olhava para cá. A idol se perdeu na plateia, e as luzes provisórias se apagavam uma a uma. O hálito da manhã caía sobre o baldio. Um cheiro que só existe hoje: orvalho na grama misturado a pólvora.
Peguei a peça no colo e sentei na beirada da plataforma. O que há dentro está esperando. Se eu acender, com certeza ela se abrirá de um jeito que nunca vi. Ou talvez termine assim mesmo, na palma da minha mão. De um jeito ou de outro, não está escrito no contrato.
Ao longe, os temporários da limpeza riam, e o rádio da manhã começava a ler novos números. O mundo continua girando como se nada tivesse acontecido. Como se quisesse me dizer que sou o único esperando esta peça extra.
O amanhecer se aproxima. Agora o tremor bate no mesmo compasso do meu coração.
E você? Acenderia? Ou ficaria comigo a ver o dia clarear, sem acender nada?