A lança ainda voa em algum lugar do céu

Duas horas da madrugada, no intervalo de uma gravação aberta ao público, entrou uma ligação de um ouvinte. Era a voz de um homem de uns quarenta anos. Eu, integrante da equipe de um rádio noturno, segurei o telefone e ouvi o que ele tinha a dizer.
Era a história de um dardo lançado por um atleta que não foi encontrado no ponto de queda. Teria acontecido no mês anterior, num campeonato internacional. O recorde foi homologado. A medição foi feita. Mas o dardo, ao que parece, jamais apareceu diante dos olhos de alguém.
— Bem, deve ter se extraviado — disse eu.
— Talvez. Mas faz três semanas e ele não apareceu. Dizem que revistaram atrás das arquibancadas, do lado de fora da cerca, até a margem do rio.
Olhei pela janela. A cidade noturna submergia no vale entre os prédios. O semáforo seguia piscando, metódico, contando alguma coisa.
As ligações continuaram depois disso. Não era o mesmo homem. Era outra voz, em outra noite. Um universitário que jogou uma moeda no estacionamento e ela não voltou. Uma dona de casa que, no auge de uma briga, arremessou palavras que não alcançaram o coração do outro e ficaram perdidas em algum lugar. Um senhor de voz grave que suspirou dentro do elevador e cujo suspiro continua flutuando, sem tocar o chão.
— Coisas que não caem, é isso? — disse eu ao telefone. — Vou incluir na lista.
Naquela noite, a transmissão ao vivo reuniu plateia mais numerosa do que o rádio da madrugada costuma ter. O programa era Para você que não consegue dormir, uma atração carro-chefe há trinta anos, apresentada por uma atriz idosa. Na televisão, a voz dela estava gasta; diante do microfone, porém, tinha uma estranha resistência, algo que não se desfazia.
Gravação com plateia é um evento vazio. O público é formado por donas de casa e estudantes reunidos por sorteio, e o aplauso sempre chega um pouco atrasado. Enquanto contemplava a mesa de som, pensei de repente: todos os mecanismos deste país são feitos de lançar e de ver retornar. Investe-se e recebe-se o retorno. Trabalha-se e o salário volta. Esforça-se e a avaliação retorna. Como o atleta que lança o dardo, cada um arremessa alguma coisa e confia na parábola que ela descreve.
E se as coisas deixassem de voltar? O que aconteceria?
Ao fim do intervalo, a atriz se aproximou do microfone. Era um quadro que não estava no roteiro. — Hoje vou contar histórias recebidas de vocês, ouvintes. Sobre as coisas que não caem.
Minhas mãos pararam sobre a mesa. Uma pauta daquelas não constava em nenhuma reunião.
A atriz começou a narrar as histórias trazidas pelo telefone sem consultar uma única nota. A história da moeda. A história das palavras. A história do suspiro. Naquela voz havia uma ternura que eu não conhecia. A plateia emudeceu, e percebi o ar do estúdio ir se desviando, pouco a pouco, da cor da luz fluorescente da cabine de transmissão.
E, por fim, ela disse: — Mas fiquem tranquilos. As coisas que não caem não desapareceram. Estão apenas voando ainda, em algum lugar do céu. Passando em silêncio sobre as nossas cabeças, a caminho de algum lugar.
Num impulso, tirei os óculos e olhei para o teto. Além da grade escura dos painéis acústicos, tive a impressão de que algo acabara de passar. Não um som. Não uma sombra. Apenas o rastro da passagem de algo em voo.
Quando a transmissão terminou, havia num canto do estúdio uma sacola de papel que alguém deixara para trás. Dentro, dezenas de cartões-postais de ouvintes e uma caneta esferográfica. Cena de todos os dias. Recolhi os cartões e reparei num deles sem endereço.
Nele, em letra caprichada, estava escrito: — Lance. Alguém virá recebê-lo.
Três horas da madrugada. No vale entre os prédios, o semáforo ainda piscava com regularidade. Segurei um cartão na mão e abri a janela do estúdio. O vento frio entrou, e os papéis sobre a mesa se ergueram numa voada. Ergui o braço. A posição de arremesso treinada trinta anos antes na torcida organizada, já quase esquecida.
O cartão foi lançado ao céu noturno.
Quando ele tocaria o chão? Ou pegaria o vento daquela noite e voaria para sempre? Permaneci junto à janela, sem esperar pela resposta. Não havia necessidade. De um jeito ou de outro, o mundo já não é feito para que as coisas retornem.
Ao longe, ouviu-se o som de algo sendo recebido. Talvez fosse ilusão. Mas antes de desligar a mesa de som, acrescentei uma única linha à programação da noite seguinte: — Lista das coisas que não caem: gravação adicional.