A Chuva Conhece a Desigualdade

No observatório meteorológico no cume da montanha, eu contemplava os dados de chuva de todo o país. Três mil metros de altitude. Aqui, dizer que se está acima das nuvens torna-se literal. Aos meus pés estende-se um mar branco, e as luzes da cidade permanecem afundadas no fundo desse mar, mesmo de noite. O céu, que não pertence a ninguém, é traduzido incansavelmente em números pelas máquinas. Velocidade do vento, pressão atmosférica, umidade. O mundo segue sendo registrado de forma ordenada, porém sem sentido.
Percebi a anomalia no fim de maio. No mapa de distribuição de chuvas do país, um padrão estranho se delineava. Nuvens de chuva evitam o relevo — isso era senso comum. Incapazes de atravessar as montanhas, elas trazem a água evaporada do mar e a derramam sobre os flancos. Por trinta anos, em todo o tempo que passei neste observatório, aquilo fora a verdade.
Mas o mapa daquele dia era diferente. A chuva não evitava as montanhas. A chuva evitava a renda.
Fixei o olhar na tela. Cruzei as regiões sem chuva com os dados estatísticos. Coincidiam. Os bairros com imóveis mais valorizados não eram tocados por uma única gota havia seis meses. Por outro lado, regiões em declínio populacional, cidades fileiras de casas vazias, distritos com altas taxas de emprego informal — todas recebiam chuva em excesso, sem trégua. A precisão aumentava a cada dia. No começo, era um viés difuso; agora, a fronteira das nuvens tinha precisão de quarteirão, a largura de uma única rua.
Pensei se deveria reportar os dados a alguém. Pensei, e desisti. Quem acreditaria? E, mesmo que acreditassem, quem se alegraria? Quem tem casa de campo no alto da montanha vai beber vinho sob o céu seco mais este inverno. Quem vive na cidade do vale será obrigado a conviver com o mofo. Mesmo que eu reportasse, nada mudaria. A máquina apenas registra. Era isso, por inteiro, esta profissão.
Entre os turnos da madrugada, tinha o hábito de ler notícias no celular. Estudantes secundaristas de Paris saíam às ruas. Protestavam contra alguma coisa. Não me senti com vontade de ler a matéria traduzida. As vozes deles pareciam não alcançar ninguém, assim como os números na minha tela. Mas, ao contrário de mim, eles erguiam a voz. Qual seria o certo: erguer a voz ou continuar registrando? Eu não sabia.
Quando o verão chegou, o viés deixou de ser “tempo” e tornou-se “clima”. As cidades secas secariam para sempre; as cidades molhadas apodreceriam. Alguém do instituto meteorológico acabaria transformando isso num artigo acadêmico. A relação de causa e efeito seria emoldurada pela expressão “ainda não elucidada”. Meteorologistas do mundo todo deviam estar observando o mesmo fenômeno com o mesmo silêncio. Ninguém consegue ser a primeira voz. Porque ninguém pode emiti-la até que esteja comprovado que ela é um erro.
Da janela do observatório, olhei para o mar de nuvens noturno. A lua estava erguida. O mar de nuvens refletia sua luz de maneira injusta. As partes claras e as partes escuras, sem fundo visível — a linha divisória entre elas coincidia perfeitamente com as luzes das ruas gravadas lá embaixo. Será que as luzes da cidade desenhavam a fronteira, e as nuvens as seguiam? Ou seriam as nuvens que traçavam a fronteira, e os humanos se dividiam em lados conforme ela?
Era belo. Ao perceber isso, me odiei um pouco. Eu previa que o mundo se partiria dessa maneira. Os salários congelados, as terras apropriadas, as pequenas revoltas substituídas pelo consumo — como se tudo estivesse programado, a chuva começou a selecionar. O capitalismo chegara até as nuvens. Aquela não era a paisagem da derrota, mas da consumação. Visto do alto da montanha, qualquer fim parece realização.
No início de setembro, um tufão se aproximou. Um tufão grande e lento. Sentei diante dos instrumentos de observação. A zona de ventos fortes atravessava exatamente a fronteira de sempre. Sobre as cidades secas, o tufão fraquejava; sobre as cidades molhadas, intensificava-se. O vento evitava a riqueza; a chuva reunia a pobreza. Os dados eram perfeitos e irrefutáveis. Continuei registrando. Porque eu decidira que aquela era a minha maneira de erguer a voz.
Na madrugada em que o tufão passou, o mar de nuvens estava limpo. Sob o sol nascente, apenas a fronteira permanecia. As bordas das nuvens, cortadas com precisão geométrica, formavam uma fileira contínua de muralha, como se selassem o céu das cidades secas. Parecia um muro que jamais se romperia. Mas o clima, por mais ordenado que pareça, carrega sempre dentro de si uma pequena perturbação. Por trinta anos, só essa perturbação eu venho perseguindo.
Os números na tela começaram a mostrar flutuações impossíveis em circunstâncias normais. Dentro da muralha de nuvens, algo girava em silêncio, em redemoinho. Como quem registra, só posso continuar a observá-lo. Mas talvez os estudantes de Paris, ou alguém num quarto cheirando a mofo, lendo notícias, tenha percebido o mesmo redemoinho. Quantas pessoas neste mundo o terão percebido? E o que farão as que perceberam?
No cume da montanha, o vento havia parado. Do outro lado da muralha de nuvens, achei ouvir, de longe, o som de algo começando a desmoronar. Continuei registrando. A revolução silenciosa, ainda sem se tornar chuva, segue girando dentro da muralha.