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Um microrconto japonês traduzido para você

Microrconto

A ausência dos que colhem o ouro

2026.10.0119:29 publicadoRedação Contos Diários do Japão

O apiário no morro atrás de casa fica a quarenta minutos de ônibus do centro, num lugar onde uma estradinha estreita de terra continua por entre a mata. Eu cuido aqui das cinquenta colmeias que herdei do meu avô. Se “cuidar” é mesmo a palavra certa, sempre duvidei. O que faço é colher o mel, oferecer água açucarada nas estações em que falta açúcar e ajustar as coisas para que elas aguentem o inverno. É como se eu fosse o administrador de um acordo que desvia o trabalho delas, garantindo apenas que continuem existindo.

Naquele dia também, na vila ao pé da montanha só se falava de um assunto: no sorteio da loteria de outono da semana passada, alguém, em algum lugar da cidade, havia ganho cem milhões de ienes. O funcionário do guichê deu entrevistas à televisão, e na internet circulavam vídeos curtos chamando o local de “rua comercial dos milagres”. Mas o ganhador não apareceu. A cidade virou festa, porém o centro estava vazio. Só havia o prêmio, sem o rosto de quem o recebesse. Isso me deixou estranhamente inquieto.

Ao entardecer, o velho carteiro que descia pela trilha da montanha disse com um sorriso amargo:
“Mesmo se eu ganhasse uma grana dessas, não faria amigos. Gente como a gente só tem para contar o que trabalhou a vida inteira.”

Naquela noite, fiz a ronda de costume pelas colmeias. Na caixa mais ao fundo, percebi no instante em que a abri: não havia som. No verão, uma colmeia ressoa com o bater de dezenas de milhares de asas, como um tremor de fundo. Mas só aquela caixa tinha o silêncio do inverno. Quando enfiei a luz para dentro, os favos de cera ainda estavam presos às armações, porém não havia uma abelha sequer. Nem rainha, nem larvas, nem soldados, nem operárias. Só mel frio, brilhando dourado até transbordar.

Nos últimos anos, caixas assim têm se multiplicado. Desaparecimento coletivo de abelhas. A ciência não identificou a causa. Venenos? Carrapatos? Ondas eletromagnéticas? Há muitos casos, ainda sem explicação, em que apenas as operárias partem, deixando para trás os bebês e a rainha, que definham; mas aquela caixa era diferente. Todos haviam partido, sem deixar nada. Não é bem “sem deixar nada”. Haviam deixado o mel. Era como uma conta bancária em que só resta o saldo, enquanto o titular desapareceu.

Sentei diante daquela caixa e pensei uma coisa estranha. Se as operárias tivessem consciência, e se tivessem ganho o primeiro prêmio da loteria, o que fariam?

Provavelmente, parariam de trabalhar. Só isso. Abandonariam as viagens para colher néctar das flores do deserto, descansariam as asas ao sol, sem ordens de ninguém. E então perceberiam: o mel não era algo que haviam colhido para si mesmas, mas algo que vinham sendo obrigadas a acumular através das gerações, para que os humanos retirassem vinte por cento da colmeia a cada ano. Não era pela rainha. Nem pela descendência. Era para adoçar o café de alguém, lá no pé da montanha.

Na noite de sexta-feira, o som de uma televisão escapava da casa dos meus pais ao pé do morro. Num tempo em que todos assistem à programação perdida no celular, a vendinha da cidade ainda mantinha ligada uma velha TV de tubo. Era um amistoso de futebol, Japão contra um país sul-americano, e a cada lance cômico de um famoso no estádio subia uma gargalhada. Dentro da tela, bilhões de visualizações e receitas publicitárias eram recolhidas sem que ninguém percebesse. Nenhum dos que bebiam e riam segurava qualquer parte daquele fluxo de lucro. Quem o segura são apenas os que planejam o jogo e os que controlam a transmissão. Todos os outros são apenas o bater de asas da multidão.

Na segunda-feira de manhã, o estrago se confirmou. Quando saí na ronda, quatorze das cinquenta colmeias haviam se esvaziado de uma só vez. Em cada uma, só mel transbordando. Como o perfume residual de quando se dá pão e circo e se perde a mão-de-obra.

Deixei a tampa aberta da colmeia mais bem cuidada e sentei na encosta do morro. Aos meus pés, além do vale, as luzes da cidade cintilavam esparsas. O prêmio de cem milhões da loteria, ao que parece, ainda não foi retirado por ninguém. Dizem que será devolvido. Talvez, a esta hora, alguém que perdeu o bilhete sem saber que havia ganhado esteja percebendo. Ou talvez tenha percebido e, de propósito, esteja calado. Porque sabe que, no instante em que levanta a voz, quem se dissolve dentro do enxame é ele mesmo.

Da colmeia vazia subiu de repente um cheiro doce. O néctar das flores é a soma da luz do sol, das raízes das plantas e da distância voada pelas operárias. E agora, como ouro que não pertence a ninguém, brilhava no escuro.

Tirei o telefone e comecei a digitar na rede de contatos dos apicultores profissionais: “Há desaparecimento anormal de colmeias.” E parei. O que deveria comunicar? Que as operárias interromperam a operação deste mundo? Ou, melhor, que todas elas se transferiram juntas para algum lugar? Quem receberia? Quem acreditaria?

Só havia uma coisa certa: nesta encosta atrás da montanha, na primavera não haveria mais sinais de enxameamento. O enxameamento é a revolução do mundo das abelhas: quando o grupo cresce demais, ergue-se uma nova rainha e a velha rainha parte levando consigo dezenas de milhares. Talvez, na primavera deste ano, diante daquelas caixas que se esvaziaram, eu já tenha visto isso acontecer. Todos partindo, deixando para trás apenas o mel.

Por alguns dias, não destruí as colmeias vazias, nem as limpei. Também não colhi mel. Apenas me sentava na encosta a cada fim de tarde e sentia o cheiro. O aroma ia se dissipando dia a dia. O ouro que ninguém colhe absorve a umidade do ar e, devagar, fermenta. Virará vinho, ou apenas azedo? Talvez o fim do mundo seja assim também: sem grande barulho, chegando primeiro apenas com um cheiro doce.

Numa dessas noites, o velho carteiro me abordou sobre o tal caso. Dizem que o ganhador apareceu.
“Você conhece quem é?”
“Não. Só sei que pagou cem anos de contribuição ao sindicato do bairro, adiantado. Foi assim que descobriram. O homem, pelo visto, não comprou mais nada e segue trabalhando todos os dias como sempre. Não gasta em nada. Apenas trabalha.”
O velho riu de forma ambígua — se imaginava algo, ou se desistira de imaginar — e se foi.

Parei diante da colmeia vazia e toquei com a ponta dos dedos os favos de cera. Frios. Já não havia lá dentro enxame algum a guardar, trabalho algum a extrair, ninguém a se revoltar. Só o excedente dourado. O último açúcar que resta quando um império termina.

E agora, o que devo fazer? Comprar novas abelhas e encher as caixas? Ou preservar este lugar como cemitério de mel, deixando que o vento leve este aroma a cada ano em direção à cidade ao pé da montanha? O mel desaparece. O cheiro esmaece. Mas o caminho que as operárias mostraram permanece. A única liberdade de um enxame: partir deixando para trás tudo o que colheu.

Além da montanha, nuvens finas tingiam o céu do poente. Era como se dezenas de milhares de asas brilhassem ao mesmo tempo, lá longe. Acenei. Só depois me perguntei: aquilo era uma despedida para quem? Para os que partiram? Para mim, que fiquei? Ou para o próximo enxame da primavera, que um dia chegará a este apiário?

O pensamento se dissolveu no vento da tarde, junto com o cheiro do mel. Dentro das caixas, o ouro segue amadurecendo em silêncio, mais esta noite sem ser colhido por ninguém.

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Redação Contos Diários do Japão

Dos bastidores das notícias de hoje, a IA colhe uma história. A redação seleciona e publica doze microrcontos por dia.

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