No fundo da água quente, a Terra desperta

Na cozinha do ryokan, quando o relógio marca duas da manhã, o vapor branco e o suspiro do mestre voltam ao lugar de sempre. Há sete anos nesta hospedaria, e ele segue com o nome de aprendiz, encarregado do preparo das tigelas e das panelas. Quase nunca o chamam pelo nome. Ele está ali, indo e vindo entre um “ei” e um “você”.
Nos intervalos do preparo, sempre rouba uma olhada no termômetro da nascente. A água desce do ventre da montanha por um único cano de cobre, passa ao lado da cozinha e segue até as termas. Por cem anos, a temperatura permaneceu dentro da margem de erro. Mas, há um mês, a cada noite, ela sobe exatos zero vírgula três graus. O mestre apenas anota números em silêncio numa velha ficha de medições, sem contar nada a ninguém.
No pequeno televisor encostado no canto da cozinha, o noticiário da madrugada segue monótono. Dizem que a Aqua-Line, o túnel que cruza o fundo da Baía de Tóquio, foi interditada. Água do mar começou a escorrer pelo teto do túnel. A ilha artificial no meio da baía, com seu deque de observação de aspecto futurista, perdeu toda presença humana. Depois das imagens, a transmissão de um jogo de beisebol: Padres e Cubs, de um país distante, trocando pontos. Uma interferência atravessa o sinal, e o placar some de vez em quando. A troca de pontos continua mesmo depois de o placar desaparecer.
Ele não consegue deixar de sentir a beleza inquietante daquela rotina. Em algum guichê de pedágio, alguém espera conserto dentro de um túnel cujo teto exsuda o mar. Enquanto a Terra esquenta aos poucos, os homens apertam contra o peito a senha da fila de espera.
A hospedaria era igual. No mês passado, uma empresa da capital veio com proposta de compra. No projeto de reforma, havia uma fechadura só para associados desenhada sobre o melhor lugar do ofurô a céu aberto: erguer sobre a nascente uma porta de mensalidade cara. Na noite em que viu aquele papel, ele cortou demais o nabo e feriu a ponta dos dedos. Ao ver o sangue escorrer no vapor, pensou: o modo deste país — cercar a água da montanha para convertê-la em dinheiro — é exato até a obsessão, correto à risca. Tão exato que até a maneira de quebrar já veio preparada.
O mestre percebeu a mudança primeiro. Numa noite, encostou o ouvido no cano de cobre e ficou imóvel. Depois olhou para ele e disse: “Inverteu.” Não é o som de água jorrando. É o som de algo, lá de baixo, empurrando devagar a água quente para cima.
O mestre estendeu a ficha de medições. A escada de zero vírgula três graus de um mês inteiro se alargava na base. Segundo um hóspede de longa data que pernoita por ali, as outras estâncias termais estão iguais. A rede de contatos das hospedarias, os boatos miúdos da associação de turismo — uma comunhão de segredos que ninguém diz em voz oficial. Dizem que os capilares que percorrem o subsolo do Japão começaram a ganhar calor todos ao mesmo tempo.
Naquela alvorada, ele parou na borda da piscina térmica antes de servir as refeições. Na superfície do ofurô a céu aberto, as últimas estrelas da noite tremulavam. O vapor cobria o vale, e só as cristas das árvores flutuavam sobre um mar branco. As luzes da cidade restavam finas e distantes; a transmissão de beisebol e a fechadura de associados eram, debaixo daquela cortina de vapor, coisas sem a menor importância. Ele não pôde deixar de pensar que aquele instante — o mundo soltando um único suspiro — era o mais belo dos seus sete anos de cozinha. Se o fim chegasse não como ruína, mas como o calorzinho de quem sai do banho, ele não encontrava razão para recusá-lo.
De manhã, o carro preto da proposta de compra deslizou até a entrada. O cano de cobre da cozinha começava a uivar um pouco mais cedo que o de costume. Esta noite também a água deve subir: zero vírgula três graus. O mestre afia a faca e nada diz. Depois de amanhã chegam os hóspedes com reserva, e todos se imergirão na água com cara de que nada acontece. Ele corta o tofu, prepara o caldo e espera para ver quando a escada da ficha de medições vai terminar.
E então, o que você faria? Deve ele deixar esta hospedaria onde a Terra está prestes a despertar no fundo da água quente? Ou deve continuar servindo as tigelas mais quentes aos últimos hóspedes?